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AVISO: Este blog será excluído da realidade virtual em breve. Meu novo endereço é: Montana: http://gmontana.blogspot.com
Beijos e abraços
Escrito por Guilherme Montana às 09h58
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Fábula II - O que é seu, é seu.
Por causa de um feitiço lançado por uma velha bruxa invejosa, três belas mulheres eram transformadas em flores, que cresciam em determinado campo, durante o dia. A uma delas, porém, era permitido ir para sua casa à noite. Então, quando uma vez já estava amanhecendo e ela estava forçada voltar para suas companheiras no campo e se tornar flor novamente, ela falou ao marido: “Se esta tarde você aparecer e me colher, eu serei libertada do feitiço e daqui para frente ficaremos juntos, eu e você”. E assim o marido fez. A questão, entretanto, é: como o marido sabia qual das flores era a sua mulher, se as três eram exatamente iguais, sem diferença alguma? Resposta: como ela estava em casa durante a noite e não no campo, o orvalho não caíra sobre ela como caíra sobre suas amigas e assim o marido a reconheceu.
Tradução e adaptação feitas por Guilherme Montana de “Um conto enigmático” dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.
Escrito por Guilherme Montana às 02h21
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Monólogo I - Hora de morrer
“Eu sei que isso pode ser o fim. Vai ser o fim, claro que vai. Mas não há como voltar – a decisão foi tomada. Nem vou ficar de ‘ser ou não ser’ porque não sou Hamlet. Já me decidi, é hoje, é agora. Isso mesmo – não preciso esperar por nada: um tiro disso aqui no meio da testa e pronto, já era. Mal vejo a hora de acabar com isso. Cansei de tudo, cansei mesmo. Esses 16 anos de vida não serviram pra nada. Será que vão deixar meu quarto assim? O que vão fazer com minhas roupas? Ah, foda-se, eu vou morrer mesmo. Vou morrer e é agora. É só pegar isso aqui, colocar assim e... Calma! Ia esquecendo – tenho de ir pagar a conta de telefone, hoje é o último dia... Porra, telefone que nada! Vão ficar mais preocupados em me enterrar do que em pagar telefone! Será?! Aliás, será mesmo? E agora, me mato ou pago o telefone? Dane-se, o negócio é me matar mesmo, isso sim é o grande lance. Todo mundo vai ficar sabendo, vou ser capa de jornal. Talvez façam um Globo Repórter sobre mim, quem sabe... Massa, é isso mesmo, o lance é morrer. ‘Vamo todo mundo morrer, pessoal!’ – putz, não era pr’eu ficar fazendo piada agora! Eu tenho de morrer, não posso deixar pra depois. Mas... se eu deixar pra fazer isso depois do filme de hoje?! Acho que hoje meu pai vai chegar mais tarde, isso é bom porque o sorvete é liberado! Ah, mas claro, ia esquecendo – meu irmão já comeu o sorvete todo, por isso ele tá de castigo. Droga! É, não tem jeito, vou morrer, vou me matar. Agora. Agora mesmo. Isso, vamo lá, coragem... É só pegar, apontar pro meio da testa e... Péra! Colocar os sapatos, não posso morrer descalço – nem mendigo morre descalço. Será que meu irmão pegou minha meia Adidas? Achei, tá aqui. Beleza, agora sim. Respirar fundo... respirar fundo... Tô pronto, hora da morte. Um, dois, três e...”
De fato, a vizinhança ouviu um disparo. Nosso convicto e decidido amigo puxou o gatilho da arma, para fazer algo que não tem volta. Não adiantou ir ao hospital, estava feito – nosso amigo disparou contra seu próprio pé direito e mesmo estando calçado isso não o impediu de perder um dos dedos.
A propósito, a caminho do hospital ele ouviu sua mãe dizer: “Meu filho, coloca mais gelo aí que a gente vai dar uma paradinha na Lotérica pra pagar a conta do telefone, não vai demorar.”
Escrito por Guilherme Montana às 18h04
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Diálogo VII - A sobra e a falta
Duas amigas de longa data; uma, estudante de desenho industrial; outra, de jornalismo; leitoras de Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Márquez, admiradoras do cinema iraniano, freqüentadoras de galerias de arte e fãs incondicionais de Chico Buarque. Elas conversam sobre o filme “Closer” e filosofia da dieta.
- ...pois é, não vi. É bom? - É óóóótimo. Minhas primas acharam meu deprê, mas eu gostei muito. Na verdade, é meio pra baixo mesmo, bem pra baixo. - Era uma peça, não era? - Hm-rrum, era sim. Por isso é tão dialogado... Tem cenas longas só de diálogo. - Ah, então ele praticamente filmou a peça! - Isso mesmo. - Vou ver. Deve ser bom, apesar da Julia Roberts. - Mas tá todo mundo bem no filme! As atuações são fantásticas, maravilhosas... - Tá bom, tá bom – vou ver assim que der. - Ai... Ontem foi tão constrangedor no cinema... - Como assim? Que houve? - Eu fui com as minhas duas primas lá de Curitiba... Elas vieram pro aniversário do meu avô, anteontem. Elas foram embora hoje de manhã. Como fazia tempo que a gente não saía, a gente foi lá no Píer pra elas conhecerem e acabamos indo pro cinema. - Sim...Tô ouvindo... - Aí uma delas foi comprar pipoca, eu e a outra ficamos na fila. Quando ela voltou, perguntou “Cadê minha irmã?”, quando eu ia começar a procurar, a irmã dela, minha outra prima, falou “Ei, tô aqui.” Ela é assim como você, bem baixinha, magrinha... Sabe?! - Não, não sei nem entendi. Não entendi mesmo. - Pôxa... Na fila, ela tava atrás de mim, entendeu?! - E...?! - Ah, meu Deus! Você esqueceu que eu tenho um e oitenta e tô uma baleia?! - Não começa! Pára! Não é assim. Pô, com todo aquele estresse de entregar projeto no fim do semestre passado você queria o quê?! É normal pegar uns quilinhos... e você não tá uma baleia, sua louca! - Já tem não-sei-quantos anos que eu preciso emagrecer! Não é de agora... - Olha, você devia ficar contente... - O quê?! - Sério, minha situação é pior. - Maluca é você. Eu sou duas, três de você! Quatro! - Tsc... Você lembra daquele professor de filosofia do segundo grau? - Lembro. O fedido, magrelão, bem alto... Ele vivia fumando – os dentes tudo marron! Aff... - Pois é, uma vez ele falou uma coisa que ficou até hoje na minha cabeça. - O quê? - “Sobra e falta”. Eu interpretei isso do nosso jeito. Eu faço parte de uma, você faz parte da outra. - Não lembro disso, não sei nem o que é. Eu fiz intercâmbio, não vi todas as aulas dele. - Ah, é mesmo. Quer ouvir? - Vai, fala. - Bem, eu vou ser sincera, me perdoa?! Não vou falar só de você, não. Perdoa? - Ah, sei lá... Relaxa, fala. - Olha... essa sensação que você sente, por causa do peso que você acha que tem, é o contrário da que eu sinto por causa do peso que eu não tenho, mas é chata do mesmo jeito. Tipo, você acha que sobra, se sente cheia de si mesma, ocupa muito espaço, todo mundo percebe você e não tem como se esconder; você acha que nenhum homem consegue carregar você – mas eu sei que você sonha com isso! Às vezes você pensa que é um “peso” pra todo mundo e que ninguém vai proteger você porque você acha que eles pensam que você não precisa, que você é forte e agüenta tudo. Meio complicado... mas entendeu?! - Hm-rrum... - Além disso, tem aquele puta draaaaama mexicano de não ter roupa que dê certo... - ...é verdade... - Não, não chora. Calma. Deix’eu falar. Agora pensa na minha situação. Eu falto! Eu também só me dou mal com roupa, tenho de comprar na seção infantil! Olha só, eu não sou eu o suficiente, por mais que eu coma não faz diferença, aí eu não como mesmo já que não vai mudar nada; eu sou magrela e pequena, ninguém me vê – eu quero me mostrar e tenho de fazer muita força pra ser notada! Daí eles, esses homens, me pegam, sacodem, colocam no ombro – é um saco! Se eu ainda pedisse, tudo bem... mas ninguém se toca e mesmo que eu fale quem é que vai dar atenção a um espirro de gente reclamando?! Eu falto... Eu sinto falta de mim e não me acho. Eu tenho que pedir pra aeromoça colocar minhas coisas no bagageiro, porta-malas, sei-lá, foda-se! E ainda por cima, não posso fazer nada sozinha porque sempre chega um idiota dizendo “Quer ajuda?” Ah, vai se foder, seu mané! - ...eles fazem isso porque você é bonita... - Não é, não! E mesmo se fosse, é uma merda do mesmo jeito. - Pôxa, eu queria ser tipo você assim... - Você ia achar uma droga.
Depois de algumas lágrimas de uma e de uns cigarros da outra, conversaram um pouco sobre qualquer assunto que as convencesse de que aquela conversa nunca houvera; despediram-se e foram embora, cada uma em seu carro. Ambas, dirigindo, pensavam: “Ela reclama, mas eu é que sei como é viver nesse corpo.”
Escrito por Guilherme Montana às 21h01
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Fábula I - Expectativa
Certo dia, um camponês disse a seus cachorrinhos – “Venham, entrem na sala, podem se divertir – peguem as migalhas de pão em cima da mesa! A patroa saiu p’ra fazer algumas visitas”. Daí os filhotes lhe disseram – “Não, a gente não vai, não. Se ela souber disso, bate na gente.” O camponês falou – “Ela não vai saber de nada, não. Venham! Ela nunca dá nada bom p’ra vocês mesmo...” Aí os filhotes, mais uma vez, disseram – “Não, não, a gente tem de deixar isso p’ra lá, a gente não pode ir”. Porém, o camponês tanto não os deixou em paz que eles acabaram indo, subindo na mesa e comendo as migalhas com tudo que podiam. Mas neste exato minuto a patroa chegou, e rapidamente pegou a bengala e os bateu, os tratou mal mesmo. Quando já estavam fora da casa, os filhotes falaram p’ra o camponês – “Tá vendo?! Tá vendo?! Viu? O senhor viu?!”, ao que o camponês, rindo, disse – “Vocês.... vocês... vocês não esperavam por isso?” Então, só o que eles podiam era sair correndo dali.
Tradução e adaptação feitas por Guilherme Montana de “As migalhas sobre a mesa” dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.
Escrito por Guilherme Montana às 23h54
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Observação
Os diálogos Der Makel, embora lançados em ordem númerica, não estão ligados entre si. Portanto, podem ser lidos separadamente.
Escrito por Guilherme Montana às 18h57
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Diálogo VI - Carnariano, Lupurino e Vulpurino
Vulpurino fez uma visita ao amigo Carnariano. Quase meia-noite, quando já tinha voltado para casa, ele chama Lupurino para uma conversa.
- Diga, tô aqui pra ouvir mesmo. Pode falar. - Eu chamei você aqui tão tarde porque eu realmente preciso conversar um pouco com você. - Quando você fala “um pouco” é porque vai demorar um bocado... - Eu sei. O problema é que dessa vez não vai demorar muito... - Desde quando isso é um problema?! Que bom que vai ser rápido! - Olha, não vá se alegrando com isso, não... Acho que você não vai gostar muito do assunto. - Tá, tá bom. Fala logo. - Decidi uma coisa muito importante e não posso fazer isso sozinho. Preciso de você. - Bem... Fala logo, então. - Lembra do nosso juramento? - Lembro. Era meio ridículo e tal... “Um por todos, todos por um”... Não foi muito criativo da nossa parte, você tem de assumir isso. - Eu sei, criatividade zero. Mas eu não duvido dele, desse juramento, mesmo sendo tão sem-graça. - É, sem-graça mesmo... - Não precisa falar assim dele! Qualé?! - Ah, foi mal. Foi cafona mas foi sincero. A gente era muito novo nessa época, tinha de ser desse jeito. Continue, isso não está sendo rápido. - Bem, o lance é que quando fui visitar o Carnariano hoje à tarde, ele tava meio mal. - “Mal” como? - Péssimo! Fumando maconha, gastando pra caralho, não tava indo direito pro emprego e tava vacilando no mestrado. Foi o primeiro de nós a conseguir a bolsa e tá fazendo merda. Ele passa o dia inteiro “dopado”, isso não é só por causa da maconha. Ele tem umas feridas no braço e vive palitando os dentes com um canudo... - Porra... E a ***********, ainda tá com ele? - Ela gosta muito dele, ainda. Eu tava com ela no telefone antes de você chegar. Ela tá tão mal quanto ele, mas só por causa dele, é claro. - É claro. - Eu fiz ele lembrar do juramento, mas ele nem ligou. Daí tive uma idéia. - Antes que você me fale qual é a idéia, ele ainda mora naquela “casa” estranha? “Casa” entre aspas. - Ah, mora sim. Sozinho. - Okay. E qual é a idéia?
Vulpurino explica a idéia a Lupurino e tudo o que dela pode resultar. A conversa demorou pouco. Quinze minutos depois, pergunta: - Mãos à obra? - Agora mesmo. À essa hora ele já deve estar “sedado”. Eu seguro e você corta? - Já que eu tive a idéia, você corta. - Tudo bem, muito democrático.
O amigo Carnariano enviou uma carta a ambos, Lupurino e Vulpurino, cinco anos depois dessa conversa. A carta contava como Carnariano tinha mudado de vida, e o último parágrafo dizia: “Desculpem-me pelo sumiço, mas tive de passar um tempo longe de tudo. As drogas e tudo o mais estavam me matando, eu estava um lixo. Passava dias no mundo da lua, sem um momento sequer de lucidez. Prova disso foi que um dia eu acordei em sangue: cortaram meu nariz! Cortaram meu nariz e eu não senti nada! Mas, como já falei no decorrer da carta, agora está tudo bem. Esqueci de dizer que depois da quinta cirurgia fiquei com um nariz novo. Não parece com o original o original de fábrica, mas já consigo arrumar namoradas. Gostaria que vocês conhecessem minha nova casa, esta é uma casa mesmo. Quando quiserem me visitar, avisem antes – estou acabando meu doutorado em tempo recorde, por isso seria difícil dar atenção a vocês dois por agora. No mais, vocês vão gostar de conhecer Düsseldorf, não troco essa cidade por nada. Auf Wiedersehen.”
Escrito por Guilherme Montana às 19h31
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Diálogo V - Sagacidade
Numa “pausa” no horário de trabalho, dois funcionários públicos se encontram na suposta área de fumantes. Eles conversam como se fossem amigos há muito tempo. Um deles, em determinado ponto da conversa, fala:
- Eu não! Eu não tenho medo de nada! - Nada?! - Sério! Não tenho medo de nada. - Aham, sei... Você quer que eu acredite nisso? - Você acreditar não é problema meu, mas eu não tenho medo de nada. - Então por que você me disse isso? - Ah, sei lá. Só pra conversar mesmo. Lembrei disso porque você falou que tinha medo de não conseguir parar de fumar. Como é que alguém tem medo disso?! - Cara, deixa de ser burro! Isso não é medo, é só um jeito de falar, entendeu? Por exemplo... Ah, deixa quieto. - Tá bom... Mas eu não tenho medo de nada. - Tem certeza? - Absoluta. - Então, tenho uma proposta pra você. - Manda. - Já que você fala que não tem medo de nada, eu vou acender mais um cigarro. - E daí?! - E daí que você vai escolher onde eu vou apagar ele. - Ha-ha! Apaga no cinzeiro, mané. - Não, nada disso. Escolha um lugar em você aonde eu vou apagar o cigarro. Sacou? - Ah, qualé! Eu não sou otário. - Você tá com medo. - Ah, colega... Você entendeu tudo errado... - Entendi tudo errado é o cacete. Você tá com medo. - Não é isso, cara. Porra, era só um jeito de falar, como você mesmo disse, sacou? - Não, não saquei. E vá logo escolhendo o lugar porque o tempo passa e o cigarro queima. - Cara, desiste. Eu não vou entrar nessa. Me queimar à toa assim, do nada... nem rola. - Você tá com medo, otário. - Que idéia maluca, cara! Eu não preciso provar nada pra você. - Eu sei que não precisa. Eu também não preciso provar nada – você tá com medo e pronto. É óbvio. - Putamerda.... - E aí?! O tempo tá passando.... Já escolheu onde vai ser? - Ah, não.... Porra, você tem certeza disso? - Eu não preciso ter certeza. Só preciso ter um cigarro pra apagar. Você tem certeza que não tem medo? Fala logo, já tá no ponto pra apagar. - Vamo fazer logo isso. Porra! Que merda.... - Onde vai ser? - Vai logo, aqui na palma da mão mesmo. - Beleza....Eu vou segurar seu braço, pra você não fugir. - Tá bom! Vai logo, porra. - Você é quem manda.... - Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!
Desse dia em diante, nosso corajoso e queimado colega decide parar de fumar exclusivamente para não ter de encontrar seu carrasco colega de trabalho na tão querida área de fumantes. Seis semanas depois pede para ser removido.
Escrito por Otto Barhoff às 15h17
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Diálogo IV - Amiga
Duas “amigas” colocam o papo em dia.
- Olha, eu nem sei como ele está nem onde, só sei que se casou. - Jura?! Com quem? - Sei lá... Parece que era uma menina lá de... de... Ah, esqueci. - Desculpe, miga. Faz tanto tempo que a gente não se vê! Você saiu de Brasília, eu passei um tempo fora... Muita sorte a gente se encontrar aqui no aeroporto. Nossa, fiquei chocada – você e ele acabaram! E já faz tempo, isso é o mais impressionante. - Pois é, quem diria... - E você tá bem agora com o seu noivo? - Olha, estamos bem, sim. Adoro ele. Muito educado, atencioso... Estamos bem. Pronto. - “Estamos bem”... - Não vamos falar nisso, tá bom?! - Pódexá, miga. Mas... posso fazer uma pergunta? - Ai, ai... Vai, faz logo (já sei até o que é...) - Por que vocês dois acabaram? Como foi? - Sabia que era isso... - Não precisa responder... - Tudo bem, eu falo. Não sei quando a gente vai se vê de novo, é melhor colocar logo tudo em dia, não é, amiga?! - Aham! É mesmo... Vai, fala. - Foi assim... - Nem acredito! - Calma, deixa eu falar! - Tá. É a ansiedade... - Meu Deus... Bem, pra começar, ele acabou comigo. Eu vou resumir a história toda pr’a gente não perder o vôo, okay? - Um-hum. - Foi por isso que eu tive de sair de Brasília. A gente tava trabalhando muito e se vendo pouco, ainda mais naquela época que ele tava entregando a monografia final e eu, o meu projeto. Era difícil a gente se encontrar com tempo, ou pelo menos com calma – a gente tava sempre estressado, saca?! Era foda... Enfim, a apresentação da monografia dele foi muito tarde, ele era o último da turma dele, era em dezembro. Eu tava na loja à tarde e à noite, tendo só a manhã pra pesquisar e fazer o meu projeto final... Poxa, nem gosto de lembrar como era o estresse dessa época... - Sei como é... - Aí, não pude ir pra apresentação dele porque tive de ficar na loja, arrumando o estoque. Dezembro, né?! A loja tava insuportável, gente entrando e saindo o tempo inteiro! Além disso, no horário de almoço desse dia eu não pude almoçar com ele porque tive de ir pra gráfica ver como ficou o meu projeto. Ele ficou muito chateado comigo, muito mesmo... Infelizmente, era esse o jeito! Não tinha como ser diferente! Depois, três dias depois, eu fui mandar um e-mail pro meu orientador, avisando que tava tudo pronto, faltava só umas coisinhas que eu podia fazer na hora e tal... Beleza. Quando abri minha inbox, tinha uma mensagem com o título estranho e era de um e-mail que eu não conhecia. Só abri porque achei que fosse alguma promoção, alguma coisa pra dar de presente pro namorado, saca? Tava “Para o seu namorado” – achei que fosse propaganda de alguma loja... - Sei... - Aí, abri o troço. Menina, fiquei pasma na hora! Quase tenho um troço! Tinha uma foto. Era a única coisa que tinha no e-mail, uma foto. - Sério? - Sério! - E daí?! - E daí que a foto era do meu namorado se pegando com outra! - Gente... - Pois é! Uma mulher que eu nunca vi na vida. Fiz questão de imprimir e mostrar pra ele! E claro, “Nunca vi essa mulher na vida” é o que eu ouço, né mole?! Fiquei possessa! Reprovei na apresentação do meu projeto, não consegui trabalhar direito na loja, engordei, foi um caos! - Nossa, amiga... Agora, ele foi quem acabou?! - Foi... Eu não sei se eu ia acabar ou não, porque ele até chorou quando eu mostrei a foto. Ele continuou dizendo que nunca nem viu essa mulher, mas tava chorando de um jeito que só podia estar arrependido... - Poxa... - Mas ele preferiu acabar. Disse que eu não confiava nele, que eu acreditava em qualquer coisa que dissessem, eu isso, eu aquilo, não-sei-o-quê, não-sei-o-quê... A última coisa que ele me disse foi “amor sem confiança não dá”. Pronto, não vi ele nunca mais. - Que triste, amiga... - Pois é... Olha! Tá ouvindo?! Meu vôo tá saindo. - Verdade! Que pena... - A gente se vê de novo, você vai ver! - Tá bom... Olha, muitos beijos, linda. Eu quero que você seja muito, mas muito feliz mesmo! Você continua linda! - Oh, amiga, obrigada. Você também vai ser feliz, com certeza. Agora deixa ir! - Tá. Tchauzinho! - Tchau!
A amiga que ficou, cujo vôo vai demorar um pouco mais a sair, ficou pensando uma única coisa depois que sua “amiga” entrou no avião: “Poxa, não sei se ela é uma anta por ter acreditado naquela foto ou se eu sou mais inteligente do que pensava... Aquela montagem foi a pior que eu fiz...”
Escrito por Otto Barhoff às 00h20
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Diálogo III - Corrente
Um padre cego é abordado, enquanto caminha num jardim, sem saber que a pessoa que a ele se dirige é um outro padre; eles não se conhecem, nem “de vista”.
- Padre? - Sim?! - Perdoe-me por interromper sua caminhada... Preciso me confessar. - Tudo bem. Como pode ver, sou cego. Por isso, e já que conheço cada pedaço desse jardim, sugiro que caminhemos juntos enquanto você se confessa. Pode ser? - Claro, padre. - Outra coisa, sejamos informais. Pode ser também? - Com certeza, padre. - Ótimo. Comece. - Essa é a pior parte... - Sempre é. Aproveite que sou cego, não é preciso me olhar nos olhos. Vamos, comece. - Padre... eu não consegui perdoar o próximo. - O que este ‘próximo’ lhe fez? - A mim, nada. Ele fez a si mesmo e aos seus. - Hum... interessante. O que ele fez? - Ele abusou sua própria filha. Ela tem apenas nove anos. Padre, eu não consegui o perdoar... - Não chore, não chore... Qual a sua relação com esse homem? - Nós apenas nos vimos uma vez... quando ele se confessou... - Ele lhe disse isso?! Por que você não chamou a polícia?! - Eu fiz isso... essa é a questão, padre. Me ajude... - Calma, não chore. O que há de errado em entregar um criminoso? Sabemos que a justiça dos homens tem de ser aplicada, mesmo que por vezes vá contra a Justiça Divina. Você se arrependeu de tê-lo delatado? - Sim... Padre, eu não consegui perdoá-lo, além disso eu o entreguei à polícia... Está tudo errado... - E onde está o fonte de tanto sofrimento? Não estou entendendo... - O senhor não me ouviu... nem eu tive coragem de lhe dizer claramente... Eu soube do que esse homem fez com a sua filha quando ele se confessou a mim. - Quando foi que ele lhe disse isso? E por que ele revelaria isso a você?! - Padre, ele não me “disse” isso – ele me “confessou”. - Espere... você também é padre? - Sim. - O que senhor fez é imperdoável, sobretudo sendo o senhor o que é. Vá embora!
A filha que não foi perdoada, mesmo sem ter culpa de coisa alguma; o pai que não foi perdoado, por ser ignorante; o padre que não foi perdoado, por ser demasiado humano; o cego que não perdoou – por não querer ver.
Escrito por Otto Barhoff às 19h29
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